A velhice, o grande desafio da sociedade do Século XXI

26/04/2019

 

O Estado do bem-estar parece ter se transformado no bem mais prezado de nossa sociedade. Mas a garantia de um bom sistema de saúde e social que aposte na qualidade de vida deve ser construído com base em uma sólida parceria público-privada. Se os alicerces não forem sólidos, especialmente em períodos de crise, todo o sistema tremerá, e a Europa não pode se dar ao luxo de ver ser derrubado um dos bens mais valorizados por todos os seus cidadãos como é o Estado do bem-estar.

 

Além dos fatores conjunturais que podem pôr em risco alguns direitos associados à implantação do Estado do bem-estar, devemos levar em conta um fator estrutural que está destinado a ser definitivo: o investimento progressivo da pirâmide de idade, apontando cada vez mais para uma sociedade mais longeva. E mais, me atreveria a dizer que a mudança demográfica é, atualmente, um problema maior inclusive que a mudança climática, um cenário inevitável que não alcança, por enquanto, o lugar que merece no discurso mundial e nas agendas políticas. A sociedade há de ser capaz de oferecer soluções ótimas para o envelhecimento de seus cidadãos, cada vez mais mais velhos e mais exigentes.

O envelhecimento da população é atualmente um problema maior inclusive que a mudança climática

 

Em 2010 havia na Espanha 2,1 milhões de pessoas com mais de 80 anos. Em 2020, haverá 3 milhões. Este envelhecimento progressivo da sociedade é, sem dúvida, o grande desafio do Século XXI. A velhice não deve ser entendida como uma doença, mas como uma etapa de necessidades preventivas concretas e em crescimento que devem estar já previstas nos planos e políticas sociais, econômicas e sanitárias dos Governos. Cientificamente, do ponto de vista médico e farmacológico, se avançou muitíssimo. Como aponta o prestigiado cardiologista Valentín Fuster, diretor do Centro Nacional de Pesquisas Cardiovasculares: “diante do final inevitável, temos de conseguir que o processo de deterioração antes dele atrase o máximo e dure o mínimo”. O aumento da esperança de vida representa um novo paradigma. Os avanços científicos e médicos transformaram doenças até agora mortais em crônicas e esta melhora se reflete em uma mudança das necessidades da sociedade.

 

Quem chegar a este ponto entenderá que o debate social sobre a viabilidade da saúde pública e o papel do atendimento privado tem máxima relevância. Um debate que está sendo feito com base nos orçamentos e nas curvas de natalidade e mortalidade, ao invés de se entender como a necessidade de focar os esforços no cuidado das pessoas.

 

Os serviços sociais e de saúde terão que ser sustentáveis. Devem ser aplicados critérios de eficiência e eficácia. Desenvolver a rede de serviços com base em um fornecimento exclusivamente público é totalmente insustentável pela falta de recursos. Sem dúvida e concretamente na Espanha, a sustentabilidade do sistema sóciossanitário passa pela criação de um marco estável, transparente e sustentável baseado na colaboração público-privada com um sistema de credenciamento definido e padrões claros de qualidade segundo as necessidades assistenciais de cada pessoa.

 

Desenvolver a rede de serviços sociais e de saúde com base em um fornecimento exclusivamente público é totalmente insustentável pela falta de recursos

 

As pessoas querem garantias de receber, quando for o momento, um atendimento sóciossanitário de qualidade. E, para isso, é preciso pôr raciocínio na despesa e despertar a criatividade com novos enfoques no atendimento. A observação, o expertise e a capacidade de antecipação do setor são as ferramentas que farão possível encontrar soluções engenhosas. Em minha opinião, o futuro passa por potencializar medidas e soluções de atendimento domiciliar, mais viáveis em termos econômicos –evitando saturar leitos dos hospitais– e que permitem a manutenção da pessoa em casa por mais tempo em benefício de suas preferências.

 

Cerca de 19 milhões de espanhóis padecem de doenças crônicas, ou seja, patologias de longa duração e, no geral, de progressão lenta. Este tipo de problema afeta mais de 4 de cada 10 habitantes da Espanha, e isso se traduz também em despesa com saúde: atualmente, as doenças crônicas representam 75% da despesa com saúde em todo o país, tornando-se o problema de saúde que demanda mais serviços de saúde em solo espanhol. No entanto, o atendimento que o sistema de saúde tradicional proporciona não dá uma resposta adequada às necessidades destes enfermos, que precisam de acompanhamento constante e coordenado, e não atendimentos pontuais. Oferecer serviços de urgência no lugar de serviços de monitoramento e prevenção para este tipo de paciente, além de ser inadequado para seu bem-estar, provoca o colapso dos serviços de saúde, deixa um espaço insuficiente para os pacientes de emergência e dispara o volume de despesa com saúde.

 

Esse raciocínio na despesa e na ótima distribuição dos recursos limitados só pode ser estabelecido em um marco claro de colaboração público-privada real, não metafórica. Neste sentido, as administrações têm que definir e planejar os serviços a prestar e pôr filtros e inspecionar tais serviços. O setor privado deve atuar como músculo executor que trabalhe com eficiência e faça sustentável o sistema.

 

Definitivamente, a mudança de paradigma do Estado de Bem-estar passa por entender as mudanças sociais que aumentaram a esperança de vida dos cidadãos. Passa também por compreender que nossa aspiração já não é chegar à velhice, mas fazê-lo em ótimas condições e tendo nas mãos, na medida do possível, as rédeas de nosso futuro. A velhice deve ser desinstitucionalizada e ganhar o papel determinante que tem e terá na sociedade, no lugar de continuar sendo vista como um empecilho.

 

Jorge Guarner

Executivo-chefe

Formado em Engenharia Industrial pela Universidade Politécnica de Barcelona e MBA em IESE, é executivo-chefe da SARquavitae. É Presidente da Associação de Empresas de Serviços para a Dependência (AESTE), e membro do Comitê Consultivo do Ministério da Saúde, Política Social e Igualdade, para a Lei da Dependência, assim como membro da Junta Direção da CEOE.

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