Economia Circular: Uma oportunidade para o futuro (das empresas e das cidades)


Nos últimos tempos, temos assistido a fenómenos de massas populacionais em ações de sensibilização por um planeta melhor, onde são apresentados argumentos e debatidas estratégias para um crescimento que promova a circularidade e a sustentabilidade como um todo.

De fato, os dados são preocupantes e motivadores para uma mobilização e articulação de todos, e note-se que, em 2050, o mundo consumirá por três. Estas projeções apresentam dados intimidantes para a produção de resíduos a nível mundial, estimando-se que o consumo de matérias-primas, como a biomassa, os combustíveis fósseis, os metais e os minerais, duplique nos próximos 40 anos e prevendo-se que a produção anual de resíduos aumente 70% neste período.

É igualmente importante despender algum tempo e refletir sobre a origem destes dados e, sem surpresas, percebemos que metade das emissões de gases com efeito de estufa e mais de 90% da perda de biodiversidade e da pressão sobre os recursos hídricos advêm da extração e da transformação de recursos. A título de curiosidade, sendo uma previsão do website overshootday.org, a 27 de maio, Portugal esgotou os recursos naturais disponíveis para 2020. Sim, para o ano inteiro! Isto significa que já estamos a consumir para além da conta e continuamente a fazer crescer o nosso défice ambiental.

A União Europeia (UE) tendo vindo a estabelecer um compromisso entre os países membros para instituir políticas que promovam a implementação de uma economia circular sustentável em áreas estratégicas. No fundo, a Europa, a partir destas medidas está a definir uma estratégia para que seja possível atingirmos a neutralidade climática até 2050, compreensivelmente não dissociando o crescimento económico da utilização dos recursos e garantindo igualmente a competitividade da UE a longo prazo sem deixar nenhum estado membro para trás. Este conceito de neutralidade climática não é mais do que a necessidade de estabelecermos um equilíbrio entre as emissões e a absorção de carbono da atmosfera feita pelos chamados sumidouros de carbono. Neste sentido, urge a necessidade da economia e sociedade em geral olharem para o ambiente e agirem, em sintonia, na transição para um modelo de crescimento regenerativo que restitua ao planeta mais do que lhe retira.

Paralelamente um estudo recente, elaborado pela Cambridge Econometrics, estima que a aplicação dos princípios da economia circular à economia da UE pode gerar um aumento adicional de 0,5% do PIB da União até 2030, criando cerca de 700 mil novos postos de trabalho.

Isto porque alguns dos pilares da economia circular assentam na necessidade de duplicar a taxa de utilização de materiais circulares e, neste caso em particular, as previsões para o tecido empresarial são animadoras, uma vez que as matérias-primas representam, em média, cerca de 40% dos custos da produção industrial ou artesanal. Assim, os sistemas em circuito fechado permitirão aumentar a rentabilidade das empresas e protegê-las das flutuações de preços dos recursos.

A estratégia da UE até 2050 assenta em iniciativas relacionadas entre si, de forma a estabelecer um quadro estratégico sólido e coerente, em que produtos, serviços e modelos de negócio sustentáveis sejam a norma e haja uma transformação dos padrões de consumo no sentido da prevenção de resíduos. É por isso necessário evoluirmos de iniciativas individualizadas para estratégias coletivas de promoção, desenvolvimento e implementação de cadeias de valor sustentáveis no tempo e em recursos. Dois grandes pilares devem acompanhar estas cadeias de valor: reduzir a produção de resíduos e promover a integração de matérias-primas secundárias de alta qualidade.

A mobilização de atores críticos na produção e difusão do conhecimento científico e tecnológico coloca uma grande responsabilidade nos centros de saber, pois é a partir da inovação e da transferência da tecnologia para a sociedade que garantimos o cumprimento dos desafios ecológicos.

A responsabilização para a reutilização, atualização e reparabilidade dos produtos, neste particular dando primazia ao estímulo da remanufatura e na reciclagem de alta qualidade, devem ser as prioridades associadas ao desenvolvimentos de produtos sustentáveis.

Em parte, estas prioridades irão permitir incentivar o modelo de negócio «produto como um serviço» ou outros modelos em que os produtores mantêm a propriedade dos produtos ou a responsabilidade pelo desempenho dos mesmos ao longo do ciclo de vida.

A circularidade constitui um aspeto essencial da transformação da indústria em direção à neutralidade climática e à competitividade a longo prazo, podendo gerar reduções substanciais de custos ao longo das cadeias de valor e dos processos produtivos, criar valor acrescentado e abrir oportunidades económicas. O diagnóstico está realizado, os pilares de desenvolvimento para uma nova economia e sociedade estão traçados, sendo agora o palco cedido às tecnologias digitais para localização e mapeamento de recursos.

Sabemos que o cruzamento da engenharia com a biologia poderá resultar numa simbiose perfeita para o desenvolvimento de um novo setor de base biológica sustentável e circular e que, provavelmente, muita da indústria de produção de matérias-primas, como a conhecemos hoje, irá evoluir no sentido de possuirmos fábricas repletas de operários biológicos (enzimas e bactérias) na génese destas novas matérias, iniciando assim um novo capítulo da revolução sustentável.

Publicado por Fernando Cunha